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Pedro Valls Feu Rosa | Uma lição que vem da África

Uma lição que vem da África

Dia desses, lendo a fascinante revista “New African”, deparei-me com um extenso artigo de seu editor, Baffour Ankomah, digno de reflexão não apenas por cada brasileiro, mas por cada latino-americano. Tentarei resumi-lo.

Voltando o olhar ao passado, registra o autor que “em 1581, o escritor inglês John Hales, cansado de ver sua pátria empobrecer mais e mais, enquanto enriquecia outras terras no continente através da exportação de matéria-prima, lamentava amargamente: que vítimas da esperteza temos sido… entregamos nossos materiais, proporcionando emprego a estrangeiros, para comprá-los novamente depois”.

“Nesta época”, recorda ele, “a Inglaterra era apenas um produtor de matéria-prima, que exportava lã para a Holanda e Itália, e importava as roupas lá produzidas”. Observa, em seguida, que “um patriota, Hales lamentava porque enxergava algo que seus compatriotas se recusavam a ver – a lógica simples de uma lei básica da economia, que dizia, e ainda diz, que, ao exportar matéria-prima para a Itália e a Holanda, a Inglaterra igualmente exportava empregos e vantagens”.

Assim porque, “como o economista e historiador norueguês, Professor Erik S. Reinert, apontou, entre a matéria-prima e o produto finalizado há um multiplicador: um processo industrial que demanda e cria conhecimento, mecanização, tecnologia, divisão de trabalho, maiores lucros, e, acima de tudo, emprego para as massas de subempregados e desempregados que sempre caracterizam os países pobres”.

Chegou-se, então, a 1721, quando Robert Walpole assumiu o cargo de Primeiro-Ministro, implementando uma política de estímulo à indústria inglesa e ao comércio, enquanto deliberadamente impedia as colônias de fazerem o mesmo, pois que deveriam permanecer apenas na condição de exportadoras de matéria-prima.

Em um de seus mais famosos pronunciamentos perante o Parlamento inglês, este grande governante assim se manifestou: “É evidente que nada contribui mais para a promoção do bem-estar da população que a exportação de produtos manufaturados e a importação de matéria-prima estrangeira”.

Esta política protecionista de Walpole, sabemos todos, contrastou com a “economia colonial” imposta aos africanos e latino-americanos, baseada no extrativismo puro e simples. Nestas regiões, seja através de processos de convencimento ou de imposição, a ordem do dia sempre foi a exportação de riquezas não-renováveis e produtos agrícolas em estado bruto.

Vamos a um exemplo moderno, citado pelo professor africano Calestous Juma: “Em 2014, a África exportou US$ 2,4 bilhões em café. A Alemanha, que não é um produtor, mas um processador, reexportou quase US$ 3,8 bilhões. Esta disparidade é um chamado para que a África agregue valor ao seu café”.

Alerta ele, então, para o fato de que as fontes de matéria-prima não são eternas, e bem assim para a verdade de que o conhecimento humano cresce com o seu uso. Estaria aí, neste aprimoramento da competência humana, o segredo da diversificação industrial, da criação de empregos e da prosperidade econômica.

A partir da análise destes fatos históricos e dados econômicos, o Professor Reinert concluiu, então: “a História ensina que quanto mais um país se especializa em produzir matéria-prima, mais pobre ele se torna”. E acrescenta: “assim, se você desejar entender as causas da prosperidade dos Estados Unidos e da Europa, estude as políticas que eles criaram, e não os conselhos que hoje, ignorando o passado, oferecem”.

É neste ponto que o autor do texto, do alto de sua indignação cidadã, contemplando o pobre povo que habita seu rico continente, exclama: está ouvindo, África? Pois é. A ele peço licença, para igualmente perguntar: está ouvindo, Brasil?

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