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Pedro Valls Feu Rosa | Nossos buracos

Nossos buracos

Dia desses li em um jornal britânico uma inacreditável notícia sobre buracos – aqueles que inevitavelmente aparecem pelas ruas afora, em função dos mais variados motivos. O título da matéria, com ares de escândalo, alertava para o fato de que “algumas administrações municipais estão colocando em perigo motoristas e ciclistas ao levarem CINCO DIAS para tapar buracos”.

Realço que grafei a expressão “cinco dias” em letras maiúsculas por terem assim sido impressas no jornal, realçando a indignação com um quadro reputado de desídia e ineficiência – afinal, falamos em direitos humanos básicos, quais aqueles relativos à vida e à integridade física.

Continuei a ler a matéria. Aprendi que a administração de Harrow Council fixa um prazo de 30 minutos para tapar um buraco, tão logo seja avisada. Enquanto isso, 16 outras administrações pedem uma hora para tal. O mais comum, no entanto, é o prazo de duas horas, fixado por nada menos que 79 administrações locais.

É a partir destes números que a matéria começa a listar os escandalosos casos de ineficiência: Cornwall pede dois dias e Leicestershire três. Chega-se, então, ao paroxismo com Coventry, onde a administração precisa de cinco dias para tapar um buraco.

Ao final do texto o jornal esclarece, ainda, o que é considerado “buraco” para fins de pronta ação da administração pública: uma imperfeição superior a 2, 3 ou 5 cm, conforme o local – a maioria entre 2 e 3 cm, diga-se de passagem.

Fui à janela contemplar o meu país. E fiquei sem saber se ria ou se chorava. Lembrei-me das famosas placas com os dizeres “Cuidado! Buracos na pista!” – de forma surrealista afixa-se uma impecável placa no acostamento ao invés de simplesmente tapar-se o buraco. Recordei-me das inumeráveis matérias jornalísticas retratando “festas de aniversário” para algumas das crateras, digo, buracos, que infelicitam a vida dos brasileiros, ferindo-lhes direitos humanos básicos.

O Brasil tem dinheiro para tapar buracos nas ruas – eis aí algo perfeitamente óbvio. Não vai aí nenhuma consequência da tal “pobreza”. Temos, sim, recursos para isto em todos os níveis da administração pública.

Não sei por qual motivo, mas veio-me à mente o desabafo de Getúlio Vargas: “a metade de meus homens de governo não é capaz de nada, e a outra metade é capaz de tudo”.

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